quarta-feira, 11 de maio de 2011

O liberal que eles odeiam




Quando leio textos de alguns teólogos moderados brasileiros, imediatamente identifico a existência de um inimigo contra o qual freqüentemente desferem acusações, praguejamentos e injurias. Esse inimigo tão odiado e implacavelmente atacado é chamado por eles de liberal.
O liberal já foi convidado a se retirar da igreja, comparado a lepra e até preterido numa mesa onde figurava um vinho do porto. Como se não bastasse todo o esculacho, sobre ele pesa ainda as duras acusações de ser a pedra de tropeço no percurso da igreja, a causa do malogro que atravanca seu crescimento e até de sua morte. Além disso, é chacoteado por pastorear igrejas ínfimas e para justificar sua condição cultiva a busca pela espiritualidade como forma de compensação e insiste na mania de articular vida cristã e questões sociais. Enfim, todos conhecemos as críticas contra os liberais, que de tão repetitivas se tornaram enfadonhas (a cada novo texto podemos dizer como o poeta: “Nada de novo há no rugir das tempestades”), mas uma questão tem me inquietado, e essa me parece ser uma questão crucial: Quem é esse liberal? Qual o seu nome? Onde fica sua minúscula igreja? Em qual seminário se formou e ensina?
Depois de refletir sobre esse buraco no discurso desses teólogos moderados, cheguei a seguinte conclusão: Objetivamente não existe liberal, assim como também não existem as minúsculas igrejas dos liberais, nem seminário liberal. Entretanto, embora objetivamente o pobre infeliz do liberal não exista, subjetivamente existe, ele existe como uma idéia que tem um importante papel político e teológico na igreja.

O liberal é uma idéia agregadora
Toda militância se dá em torno de uma causa, em torno de um ou vários pontos que promova a união dos pensamentos e faça confluir todos esforços na mesma direção. A eleição de um inimigo é uma maneira extremamente eficaz para agregar pessoas, o inimigo eleito passa a ser o ponto para onde convergem as atenções, promovendo a coesão do grupo e conseqüentemente levando-o a lutar contra o inimigo que o ameaça. Nesse sentido, a existência desse inimigo é necessária à sobrevivência do grupo, pois este só existe para aquele, se morrer o liberal os teólogos moderados e todos os que compactuam de suas idéias perdem o sentido de existir. Por isso, os insistentes ataques aos liberais não têm o objetivo de exterminá-los, mas de mantê-los vivos, pois a ausência de referência a eles é sua morte e conseqüentemente a morte de uma eficiente idéia agregadora.

O liberal é uma idéia coerciva
Uma das coisas impressionantes nos teólogos moderados é a capacidade de coagir. Embora não disponham hoje dos instrumentos de tortura física, utilizados nos regimes ditatoriais, quando atacam, caricaturam e desfiguram o inimigo e sua teologia, estão indiretamente coibindo a um crer “corretamente”, viver “corretamente”, pensar “corretamente”, etc. (diga-se de passagem que correto é somente o deles). Além disso, o liberal é pintado como um monstro tão assustador e perigoso que seus textos devem ser evitados, e se porventura alguém tiver interesse em conhecer um pouco do seu pensamento, deve lê-los a partir de textos dos moderados, pois o contato direto com aqueles teólogos pode ser contagioso, sendo mais prudente àqueles que prezam pela boa saúde espiritual e pela salvação da alma que fiquem distantes. Com isso a coerção se dá de duas maneiras: pelo medo do desvio da reta doutrina e pelo perigo de contaminação. O que nos leva mais uma vez a concluir a importância do liberal não só para existência dos moderados, mas também como elemento chave para lealdade de seus seguidores.

O liberal é uma idéia promotora
No momento em que se nomeia um inimigo é preciso também que se criem os heróis. Estes representam tudo que é bom: o equilíbrio, a sabedoria, o discernimento, sendo os poucos capazes de travar uma luta em pé de igualdade contra aqueles. Os heróis são os moderados que corajosamente confrontam os inimigos liberais, e ainda fazem um patrulhamento teológico nas instituições religiosas monitorando os acontecimentos, as palavras, os eventos e até as picuinhas. Os moderados são verdadeiros guardiões que de maneira altruísta e abnegada dedicam suas vidas e esse serviço, velando pela boa saúde da igreja. Mas esses “mocinhos” são devedores aos “bandidos”, pois quanto mais perigoso e ameaçador este for pintado, maior é a glória e os louros daqueles que os enfrentam. Daí a importância de ocuparem os cargos importantes, serem palavra final em assuntos teológicos, filosóficos, políticos, éticos, etc. e serem reverenciados por uma multidão. Contudo, um olhar mais cuidadoso nos revela que o pedestal que sustenta esses heróis é o liberal.


Enfim, a história é testemunha de que, o poder e a verdade nem sempre caminham juntos. Se existe um liberal hoje no Brasil é aquele que os moderados criaram e se esforçam para manter vivo por uma questão auto-existência, legitimando assim o ostensivo e amplo monitoramento teológico, para não permitir que nenhum pensamento divergente se prolifere semeando a dúvida e nublando a verdade por eles defendida, pois o pensamento divergente pode ser prejudicial sobretudo à posição que ocupam no poder. Assim, para manter seu status se valem desse criativo expediente: o liberal.



Luciano Borges

terça-feira, 10 de maio de 2011

Sobre um livro








Por que você não quer mais ir à igreja?

Esse é o tipo de livro que não é preciso avançar muito na leitura para logo perceber a “intenção” dos autores que, em linhas gerais, pretendem oferecer uma alternativa ao tradicional modelo de igreja caracterizado como agrupamento de pessoas que vivem sua fé sob uma organização eclesiástica.
A partir de uma ficção os autores denunciam as máculas existentes na estrutura da igreja e suas conseqüências sobre a vida daqueles que dela participam, sugerindo finalmente a possibilidade de se viver o cristianismo fora das instituições eclesiásticas. Embora caminhe na mesma linha do livro “A Cabana”, este não pode ser considerado tão impactante quanto aquele, talvez pelo assunto não ser tão instigante e a trama não ser tão cativante. Sua história gira em torno de um homem chamado Jake Colsen que, tendo sofrido uma decepção com a liderança da igreja onde participava se vê numa crise em relação à instituição. Nesse tempo Jake conhece João, um cristão um tanto misterioso (de quem Jake desconfiava se tratar do apóstolo João) que vai ajudá-lo a administrar sua frustração e mentoreá-lo em seu relacionamento com Deus a partir de novas estruturas não mais ligadas a uma instituição.
O livro deixa muitas lacunas (daí o motivo do questionário no final para direcionar o leitor) de maneira que a posposta dos autores, embora evidente, se torna vaga e não encontra ressonância a não ser em alguns descontentes com a atual estrutura administrativa da igreja. A impressão é de que os autores, a partir de alguma experiência frustrante com a instituição escreveram esse livro tendo como objetivo apontar para a possibilidade de vida cristã sem igreja, de fé sem instituição.

Penso que essa proposta aparentemente inovadora carrega consigo o germe de uma nova instituição também com potencial para deteriorização. Acredito que seja possível a vida cristã fora da instituição, mas fazer disso uma bandeira de militância me parece um tipo de causa sem sentido.



Luciano Borges

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sobre templos religiosos

Nossos templos religiosos são imponentes monumentos à vaidade humana e uma agressiva denúncia de nossa monumental incompreensão da simplicidade do evangelho de Jesus Cristo.

Luciano L. Borges

quinta-feira, 24 de março de 2011

Sobre o fundamentalismo

O problema do fundamentalismo no seio da igreja (seja ela qual for) não está em terem posições teológicas, éticas, morais,... engessadas, mas em imporem sua posição como única razoável e, se preciso for, mutilar o diferente para fazer prevalecer sua verdade.

Luciano Borges

sexta-feira, 4 de março de 2011

Coisas que me impressionam


"Felicidade não existe
O que existe na vida
São momentos felizes."




Quem não deseja ser feliz? Acredito que podemos afirmar, sem medo de errar, que essa é a principal busca do ser humano. Talvez até seja uma busca subjacente a outras, mas que no fundo, faz de todas estas um pretexto para sua realização. Nesse sentido, quem sabe possamos afirmar que a incansável busca da felicidade seja um desejo às vezes manifesto, às vezes oculto que move o ser humano em suas escolhas, projetos e sonhos, aliás, o filosofo Blaise Pascal dizia: “Todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção...É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar...”. Pois bem, com a finalidade de saciar essa sede de felicidade o ser humano vai lançar mão dos recursos que tem a sua disposição para, quem sabe, saborear ao menos uma gota dessa coisa tão desejada.

Impressiona-me o aparato tecnológico que hoje temos à nossa disposição para nos fazer felizes. São celulares com maquinas fotográficas de alta resolução, gravador de voz e vídeo, radio FM e TV, temos computadores potentíssimos, TVs de alta definição, IPod, IPed, etc., etc., etc. tudo à nossa disposição para nos informar, entreter e facilitar a vida. Toda esse parafernália tecnológica se tornou tão importante para nós de maneira que não conseguimos imaginar nossa vida sem algumas delas, por exemplo: quem não fica apreensivo com a possibilidade de ter seu computador infectado por um vírus que possa danificá-lo? Quem, saindo de casa percebendo que esqueceu celular não volta para buscá-lo? Há quase que uma relação de dependência orgânica entre nós e nossa tecnologia.

Impressiona-me o ânimo com que adquirimos coisas julgando que nos farão felizes. Há pessoas que para compensar uma experiência negativa (tristeza, frustração, decepção) precisam consumir. O consumo funciona como uma espécie de compensação pelo momento difícil que atravessam. Contudo, mesmo quando não estamos “para baixo” é comum irmos aos shoppings, e se dali não sairmos com pelo menos uma “sacolinha” nos sentimos mal. Quando consumimos preenchemos nosso um vazio existencial e experimentamos um bem-estar momentâneo que nos proporciona uma vida um pouco mais aprazível.

Impressiona-me a múltipla possibilidade relacionamento que hoje dispomos para nos fazer mais felizes. E-mail, orkut, my space, twiter. Podemos conhecer pessoas diferentes, de perto ou de longe, podemos nos agrupar por gostos e afinidades, mas interessantemente, mesmo com essa ampla possibilidade nos envolvemos sem nos envolver, expomos nossa vida ao extremo, mas permanecemos isolados uns dos outros e conseguimos nos manter a uma distância suficiente para manutenção de um profundo relacionamento impessoal.

Impressiona-me o número de igrejas que acolhem os sedentos de felicidade. Igrejas que oferecem soluções mágicas e instantâneas através de auto-ajuda, auto-afirmação, versículos bíblicos, orações, e até “desencapetamento” por módicos valores. Pessoas afluem para essas igrejas como no deserto o sedento corre para a miragem de um lago, por acreditarem que ali encontrarão o mapa da mina do tesouro da felicidade, ou pelo menos lhe ensinarão os segredos e macetes para uma vida feliz.

Impressiona-me, mais ainda ao concluir que a busca da felicidade é uma busca ao mesmo tempo cômica e trágica, pois, percebo que, apesar de todos os recursos e aparatos criados pelo homem para viabilizar a felicidade, a humanidade permanece infeliz. Para grande parte das pessoas a felicidade se tornou mais um sonho de consumo inacessível, cuja aquisição não possui nenhuma relação com suas escolhas e decisões do dia-a-dia. Notadamente, a vida feliz foi separada da vida correta e bem ordenada, uma nada tem haver com a outra. Questionado se, pessoalmente, se considerava uma pessoa feliz o filósofo André Comte-Sponville respondeu: “regozijo-me de viver e lutar: Se isso não é uma felicidade, o que é a felicidade?” Talvez essa seja uma boa dica para repensarmos nossa busca da felicidade.

Luciano Borges

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Solitude


Quero ficar só...
Preciso ouvir o silêncio
Que me sussurra segredos
Pra descobrir o que me dói
Porque em minh´alma há um peso,
No meu peito um aperto,
E na garganta um nó.

Luciano Borges

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Jesus que eu nunca conheci


Uma das barreiras que pode ser empecilho para expandir nosso conhecimento pode ser o conhecimento adquirido (sobretudo no campo religioso). Esse conhecimento adquirido e sedimentado funciona como uma espécie de trincheira onde nos escondemos e nos protegemos do novo que não poucas vezes ameaça nos desestabilizar. Sair da trincheira para enfrentar o novo de peito aberto é um ato de coragem heróica que poucos estão dispostos.
Faço parte de uma geração que conheceu um Jesus midiático, pintado com fortes traços heróicos e triunfalistas, um Jesus que pouco tem de humano. Mas há alguns meses resolvi sair da trincheira e me expor de peito aberto ao texto bíblico do evangelho de Marcos, tentei permitir que minha visão de Jesus Cristo fosse remodelada a partir de uma nova leitura, uma leitura desarmada e despretensiosa do evangelho em busca de Jesus, o homem de Nazaré. Confesso que minha experiência foi marcante, pois vi abrir-se diante de mim possibilidades que até não havia notado. Descobri no evangelho...

Um Jesus demasiadamante humano.
Tenho a impressão que a humanidade de Jesus, embora um dos pontos fundamentais afirmados nos dogmas do cristianismo, ficou submersa em sua divindade. Pouco se fala de sua humanidade e de aspectos que dizem respeito a ela, tais como: sua fragilidade, suas angústias, seu drama. Por outro lado, a sua divindade, como uma espécie de “algo a mais”, tornou-se o grande trunfo nas mãos daqueles que acreditam que ela torna o cristianismo superior a outras crenças e religiões. Contudo, é claramente perceptível no evangelho que a humanidade de Jesus não foi apagada por sua divindade, nem se tratava de uma humanidade melhorada, mas sua humanidade foi um mergulhar no mais profundo do drama humano e vivenciar esse drama em toda sua intensidade, Jesus realmente chorou a morte de Lázaro, sentiu a dor da rejeição de Jerusalém, se angustiou diante da iminência de seu sofrimento. Em sua humanidade Jesus vivenciou a mais profunda negatividade, o teólogo católico Andrés Torres Queiruga fala de Jesus como o “ proletário absoluto”.
Mas é a partir dessa humanidade que emerge uma possibilidade, como homem Jesus introduziu no mundo uma incômoda contradição. Sem ele teríamos apenas um modelo de humanidade, o que se encontra ao nosso redor e em nós, marcada pelo egoísmo, pela ganância, pelo orgulho, mas quando Jesus assumiu a humanidade com todas as suas implicações e tensões ele introduziu na história humana um modo diferente de ser humano.

Um Jesus crítico da religião.
Não há dúvidas que Jesus nasceu e viveu dentro de um sistema religioso, o judaísmo, um sistema no qual as regras já estavam estabelecidas e no qual não cabiam questionamentos. Embora Jesus tenha nascido dentro dessa realidade e a assumido como prática pessoal (Jesus freqüentava a Sinagoga e o templo, orientava outros a cumprirem as práticas culticas) não se mostrou indiferente em relação aos aspectos opressores, desumanos e exploradores que a permeavam.
Ele não se calou diante dos abusos para com as interpretações da Lei, quando as tradições dos homens sufocavam seu real sentido, não se submeteu às amarras que a guarda do sábado impunha tornando o homem um escravo, não se mostrou indiferente ao sistema exploratório do templo que chegava a ponto de tirar até as únicas moedas de uma pobre viúva, não poupou críticas aos religiosos.
Em sua relação com a religião Jesus não foi um mero receptor submisso que acolhia tudo passivamente, mas se relacionou de maneira crítica, de forma que, ao mesmo tempo em que vivenciava essa piedade também denunciava seus aspectos pervertidos.

Um Jesus acolhedor dos indignos.
Se olharmos para as pessoas que formavam o grupo dos discípulos de Jesus, para a multidão que o cercava ou até mesmo para os pecadores e publicanos com os quais compartilhava da mesa, fica claro que Jesus fez uma opção por aqueles que eram excluído e considerados indignos. Entre seus discípulos havia um cobrador de impostos e um zelote, a multidão (ochlos no grego) estava sempre ao seu redor, acolheu crianças, e, interessante, entre os mais chegados de Jesus não havia nenhum fariseu, saduceu ou sacerdote.
É no mínimo intrigante a opção de Jesus de caminhar ao lado de tais pessoas, uma vez que se esperava que o Messias, para bem de sua credibilidade, fosse alguém mais seletivo na escolha daqueles que estariam ao seu lado (diga-me com quem andas e direi quem és), contudo, com essa opção Jesus revela que o Reio de Deus não é exclusivo, mas inclusivo, Jesus mostra também que a Graça de Deus (favor imerecido) não levar em conta os créditos e perdoa os débitos.
A atitude de Jesus em relação aos indignos não foi uma provocação para causar escândalos às pessoas de seu tempo, mas uma antecipação, um desvelamento do que é o Reino de Deus.

Um Jesus como modelo de vida.
Por fim,(sem exaurir o assunto) descobri que a vida de Jesus no evangelho, tem como objetivo servir como paradigma para nossa vida. Por esse motivo seu modo de viver não deveria passar despercebido aos nossos olhos. Sua postura diante dos que sofrem, sua obediência amorosa a Deus, sua abnegação, sua compaixão, sua disposição para servir e até seu sofrimento. Jesus não nos deu um mapa para o céu, mas diretrizes para vivermos nesse mundo com valores e princípios mais elevados. Aliás, ser discípulo significa aprender com as atitudes do mestre e tomá-las como modelo e como critério de auto-exame. Assim percebi que Jesus não veio a esse mundo para fazer de nós pessoas felizes, mas para nos mostrar como podemos ser pessoas melhores: mais justas, mais honestas, mais bondosas, ele é o nosso paradigma.

Por maior que seja o tempo de convivência com uma pessoa não é possível afirmar que a conhece completamente, nosso conhecimento do outro é sempre superficial. Assim também podemos falar de nossa experiência com Jesus, por mais que o conheçamos há sempre algo novo a ser conhecido e abrir-se a renovação do nosso conhecimento não significa opção por caminhar no chão escorregadio do relativismo, mas consciência das nossas limitações e conseqüentemente, das possibilidades de crescer. Olhar para Jesus e percebê-lo a partir de uma outra perspectiva não significou negar tudo que aprendi, mas enriquecer e ampliar meu horizonte e perceber a amplitude do desafio de andar com Jesus.


Luciano Borges