quinta-feira, 29 de abril de 2010

Reflexão


O pensamento não nega o "mistério", mas somente a preguiça mental diante dele; não nega a tradição, mas apenas seu congelamento na repetição de um passado morto.

Andrés Torres Queiruga

terça-feira, 13 de abril de 2010

Convite


Discutir a questão da mundanidade não significa introduzir um novo assunto na arena dos debates da igreja cristã evangélica. Uma vez que a problemática mundo-vida cristã sempre ocuparam um lugar tanto na prática como no pensamento cristão, fazer hoje da mundanidade objeto de reflexão é tentar contribuir para entendermos essa dimensão, em busca de uma alternativa saudável para vivenciá-la.
É verdade que a mundanidade se tornou um assunto bastante espinhoso no meio cristão (sobretudo entre os evangélicos) pois, de um lado, o espiritual foi revestido de um valor superior ao material (influência do platonismo que marcou o Ocidente) e de outro, as interpretações bíblicas do termo mundo não conseguiram avançar para além dos preconceitos antecipadamente enraizados na mentalidade de muitos interpretes, resultando numa pratica na qual o mundo é sempre visto com desconfiança e muitas vezes como ameaça a fé.
Nosso objetivo com o encontro “Conversa com quem gosta de pensar - mundanidade e vida cristã” é problematizar a visão sedimentada, que vê a vida cristã em franca oposição ao mundo, legitimando um estereotipo de cristão extremamente estreito e reduzindo o cristianismo a uma religião do “não pode”.
Teremos como palestrantes principais, Silas Luiz de Souza (pastor presbiteriano, licenciado em história, Mestre em Ciências da religião, professor no Seminário Presbiteriano do Sul e na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Escritor do livro: Pensamento social e político no protestantismo brasileiro) e Leandro Thomaz de Almeida (pastor presbiteriano, formado em Letras pela UNICAMP, onde também fez o Mestrado, atualmente no Doutorado estuda as relações entre romance e moralidade na literatura naturalista brasileira).

Dias: 16 e 17 de abril
Local: Igreja Presbiteriana Bethel
R: Cônego Cipriano de Souza Oliveira, 374 - Jd. Montezuma - Limeira

segunda-feira, 29 de março de 2010

segunda-feira, 22 de março de 2010

Dogmatismo e tolerância


Ler o livro Dogmatismo e Tolerância de Rubem Alves, foi num primeiro momento, mais uma obrigação de consciência que um simples desejo por essa leitura. Se dependesse de minha escolha, teria lido outro livro, quem sabe Tillich, Ricoeur, Moltmann ou outros. Entretanto, pelo fato de tê-lo recomendado a um amigo me senti na obrigação de também conhecê-lo. Mas aquilo que começou como obrigação se tornou prazeroso e enriquecedor; na medida em que avançava pelas paginas dessa obra me deparei com uma fonte inesgotável, em outras palavras, esse livro foi tão marcante, que inclusive, me valeu estas mal traçadas linhas.
Apesar de ser considerado persona non grata por alguns, na Igreja Presbiteriana do Brasil, a história de Rubem Alves se entrelaça com a história dessa denominação, (para tristeza de alguns e alegria de outros) dele dizia o saudoso Rev. Joás Dias de Araújo: “O Rubem é um vulcão teológico”. Após seus estudos de teologia no Seminário Presbiteriano do Sul (SPS), adquiriu grau de mestre na mesma área pelo Union Theological Seminary (New York) e doutor em filosofia pelo Princeton Theological Seminary (Princeton), transitando também pela psicanálise, etc. Rubem Alves tornou-se, sem dúvida, uma referência o pensamento brasileiro.
Mas quero falar do livro. Dogmatismo e Tolerância é um ensaio que tem como objetivo uma análise histórica dos caminhos trilhados pela igreja Protestante e pela igreja Católica, no Brasil. Como análise, essa obra não se limita a manipular e organizar os acontecimentos históricos, mas faz uma escavação, revelando uma dinâmica invisível que direcionou os eventos que marcaram tanto o protestantismo como o catolicismo. Assim, ao escavar por baixo, Rubem Alves torna visível elementos que a história contada não capta. Pontuo algumas questões abordadas no livro:

1. Como a igreja Protestante, que nasceu sob um ideal de liberdade e livre exame das Escrituras (Sacerdócio universal de todos os crentes) veio mais tarde a se fechar de forma tão radical?
2. O que é uma heresia e como é instituída?
3. A partir do ideal da Reforma do século XVI, o que significa ser protestante?
4. O que é o fundamentalismo e como se deu sua implantação na América Latina?

Essas e outras questões são abordadas nesse livro que, não obstante seu aspecto acanhado, (apenas 173 p.) é denso em seu conteúdo. Já li outros textos do Rubão (como é carinhosamente conhecido entre os seminaristas do SPS) que são sempre marcados tanto pela riqueza de informação como pela beleza da forma, valorizando um diálogo com teólogos, filósofos, sociólogos etc., e esse é mais um que realmente vale a pena.
Há pessoas que enaltecem Rubem Alves, não por sua produção intelectual, mas por sua saída da IPB, devido a sua orientação “liberal”. De minha parte, lamento sua saída, pois gente como ele nos faz pensar, nos revela que nossa fé não pode permanecer infantilizada e que maturidade antes de significar um conhecimento fossilizado, significa uma abertura para o aprendizado.

Luciano L. Borges

quarta-feira, 3 de março de 2010

Frágeis idéias sobre Deus (2 parte)


Considerando que Deus está para além de nossas capacidades e recursos cognitivos, que não encontro imagens de Deus em porta-retratos ou cartazes pelas ruas, que não o vejo no noticiário da TV, enfim que não o enxergo, que não o toco etc. como posso apreendê-lo? Para isso lançamos mão dos recursos que temos ao nosso alcance, nos valemos de nosso histórico de vida, nossos conhecimentos bíblicos, nossas experiências religiosas, afetivas, sociais etc., que possibilitarão abordar aquilo para o qual meus conhecimentos estão sempre aquém. Crianças fazem isso: Quando damos um lápis a uma criança e lhe pedimos que desenho o papai ou a mamãe ela faz um risco aqui outro ali e ao lhe perguntar pelo que desenhou ela responde: o papai e a mamãe. Assim como nós em relação a Deus, ela se vale dos recursos que tem para representar seu objeto.
No trabalho de “representar o além no aquém” (Paul Ricoeur) nos deparamos com a fragilidade de nossas idéias. E falando do livro A Cabana, aqui está o motivo do choque de Mack ao encontrar Deus como três figuras humanas e, conseqüentemente o motivo do choque de muitos ao se deparar com a descrição do livro; é instaurada uma tensão entre aquilo que se imagina e o que se contempla. Penso que essa experiência é como ouvir um radialista e a partir de sua voz fazer uma construção imaginária de seu aspecto físico: a cor dos cabelos, dos olhos, da pele, altura etc.; quando nos depara com a pessoa há um espanto, pelo fato que a imagem outrora criada não corresponde com a contemplada. Não há uma correspondência exata entre nossas idéias de Deus e o próprio Deus, o máximo que conseguimos com nossos recursos é fazer uma metáfora. Isso se dá também quando se fala da sua bondade, do amor, da misericórdia etc; também falamos dessas características a partir de nossa realidade e de nossas experiências.
Há pessoas que tem em mente a idéia de um Deus caprichoso que maltrata quem não cumpre os acordos, um Deus vingativo que se pune daqueles que erram o alvo ou um Deus vaidoso com baixa auto-estima que necessita do nosso elogio. Kierkegaard, filósofo dinamarquês, viveu uma religiosidade dramática, profundamente marcada pela influência de seu pai que, segundo contam os historiadores da filosofia, certo dia amaldiçoou a Deus e pelo resto da vida arrastou esse fardo de culpa e medo de uma vingança iminente. Há algum tempo ouvi de uma mãe cujo filho esteve internado numa UTI, que no momento de desespero fez um voto a Deus de que se a criança sobrevivesse ela voltaria para igreja, e caso não cumprisse seu voto Deus poderia lhe tomar a criança, como castigo.
Essas e outras idéias de Deus são construções a partir de fragmentos de nossas vivencias, e que não poucas vezes estão na base de uma religiosidade mórbida, marcada pelo medo e pela culpa. Não poucas são as pessoas que pensam que pelo fato faltaram ao culto dominical, Deus as castigará, não são poucas as pessoas que atribuem catástrofes e infortúnios ao afastamento de Deus. Enfim, por mais engenhosos e criativos que sejamos, não há uma exata correspondência entre nossas idéias e o próprio Deus. Nossas idéias de Deus não são como uma fonte de água límpida, pura e sem mistura que vem direto dele, mas em Jesus Cristo temos algo maravilhoso, o Pai desconcertantemente amoroso e generosamente acolhedor, não obstante as idéias que dele fazemos.
Luciano L. Borges

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Poema em linha reta

Belissima interpretação de Osmar Prado.

Frágeis idéias sobre Deus (1 parte)


“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no
seio do Pai, é quem o revelou”. João 1.18




Uma das provocações que resultam da leitura do livro A Cabana, de William Paul Young, é sem dúvida, em relação a nossa visão de Deus, ou melhor, em relação a idéia que temos de Deus. Logo no início da leitura nossa imaginação é afrontada quando o autor apresenta a Trindade como Elousia (Deus Pai), uma negra enorme e sorridente que ouvia funk/blues (não religioso) enquanto trabalhava na cozinha, Jesus (Deus Filho), um homem de aproximadamente trinta anos com aspecto do Oriente Médio, com aparatos de um operário, cinto de ferramentas e luvas, vestido de jeans e camisa xadrez com mangas enroladas acima do cotovelo, e Sarayu (Deus Espírito), mulher asiática de etnia mongólica aparentando ser uma jardineira com luvas dobradas no cinto, vestida com uma blusa colorida e jeans com manchas de terra nos joelhos.
O contato com essa descrição tem um efeito de “desestruturação conceitual”, causando uma espécie de abalo sísmico nas idéias sedimentadas que, conseqüentemente, gera certa “desordem” interna. Há algum tempo conversava com uma pessoa que começou a ler A Cabana mas, que em certa altura não conseguiu ir adiante, pois em sua mente, pensar Deus dentro de parâmetros tão humanos era algo inconcebível, um insulto, um sacrilégio. Suas idéias de Deus estavam em choque com as novas idéias apresentadas, eram incompatíveis e inconciliáveis.
Mas, a partir desse encontro conflituoso, nesse desconforto da desestruturação conceitual, podemos levantar questões como: Como você imagina Deus? Quais idéias você tem de Deus? Quando você conversa, ora, canta em adoração o que vem a sua mente? A partir disso pontuo três observações que considero importantes para essa discussão:

1. Deus está para além de nossa capacidade de compreendê-lo;
2. Em nossa tentativa de apreender Deus, lançamos mão dos precários recursos que temos ao nosso alcance;
3. Por mais engenhosos que sejamos não o atingimos, não representamos, apenas “metaforeamos”.

Luciano L. Borges