"Felicidade não existeO que existe na vidaSão momentos felizes."Quem não deseja ser feliz? Acredito que podemos afirmar, sem medo de errar, que essa é a principal busca do ser humano. Talvez até seja uma busca subjacente a outras, mas que no fundo, faz de todas estas um pretexto para sua realização. Nesse sentido, quem sabe possamos afirmar que a incansável busca da felicidade seja um desejo às vezes manifesto, às vezes oculto que move o ser humano em suas escolhas, projetos e sonhos, aliás, o filosofo Blaise Pascal dizia: “Todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção...É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar...”. Pois bem, com a finalidade de saciar essa sede de felicidade o ser humano vai lançar mão dos recursos que tem a sua disposição para, quem sabe, saborear ao menos uma gota dessa coisa tão desejada.
Impressiona-me o aparato tecnológico que hoje temos à nossa disposição para nos fazer felizes. São celulares com maquinas fotográficas de alta resolução, gravador de voz e vídeo, radio FM e TV, temos computadores potentíssimos, TVs de alta definição, IPod, IPed, etc., etc., etc. tudo à nossa disposição para nos informar, entreter e facilitar a vida. Toda esse parafernália tecnológica se tornou tão importante para nós de maneira que não conseguimos imaginar nossa vida sem algumas delas, por exemplo: quem não fica apreensivo com a possibilidade de ter seu computador infectado por um vírus que possa danificá-lo? Quem, saindo de casa percebendo que esqueceu celular não volta para buscá-lo? Há quase que uma relação de dependência orgânica entre nós e nossa tecnologia.
Impressiona-me o ânimo com que adquirimos coisas julgando que nos farão felizes. Há pessoas que para compensar uma experiência negativa (tristeza, frustração, decepção) precisam consumir. O consumo funciona como uma espécie de compensação pelo momento difícil que atravessam. Contudo, mesmo quando não estamos “para baixo” é comum irmos aos shoppings, e se dali não sairmos com pelo menos uma “sacolinha” nos sentimos mal. Quando consumimos preenchemos nosso um vazio existencial e experimentamos um bem-estar momentâneo que nos proporciona uma vida um pouco mais aprazível.
Impressiona-me a múltipla possibilidade relacionamento que hoje dispomos para nos fazer mais felizes. E-mail, orkut, my space, twiter. Podemos conhecer pessoas diferentes, de perto ou de longe, podemos nos agrupar por gostos e afinidades, mas interessantemente, mesmo com essa ampla possibilidade nos envolvemos sem nos envolver, expomos nossa vida ao extremo, mas permanecemos isolados uns dos outros e conseguimos nos manter a uma distância suficiente para manutenção de um profundo relacionamento impessoal.
Impressiona-me o número de igrejas que acolhem os sedentos de felicidade. Igrejas que oferecem soluções mágicas e instantâneas através de auto-ajuda, auto-afirmação, versículos bíblicos, orações, e até “desencapetamento” por módicos valores. Pessoas afluem para essas igrejas como no deserto o sedento corre para a miragem de um lago, por acreditarem que ali encontrarão o mapa da mina do tesouro da felicidade, ou pelo menos lhe ensinarão os segredos e macetes para uma vida feliz.
Impressiona-me, mais ainda ao concluir que a busca da felicidade é uma busca ao mesmo tempo cômica e trágica, pois, percebo que, apesar de todos os recursos e aparatos criados pelo homem para viabilizar a felicidade, a humanidade permanece infeliz. Para grande parte das pessoas a felicidade se tornou mais um sonho de consumo inacessível, cuja aquisição não possui nenhuma relação com suas escolhas e decisões do dia-a-dia. Notadamente, a vida feliz foi separada da vida correta e bem ordenada, uma nada tem haver com a outra. Questionado se, pessoalmente, se considerava uma pessoa feliz o filósofo André Comte-Sponville respondeu: “regozijo-me de viver e lutar: Se isso não é uma felicidade, o que é a felicidade?” Talvez essa seja uma boa dica para repensarmos nossa busca da felicidade.
Luciano Borges